O futuro da engenharia brasileira passa, cada vez mais, por tecnologia, representatividade e capacidade de adaptação às novas demandas do mercado. Em uma conversa marcada por visão estratégica e autocrítica, Miguel Fernández, presidente licenciado e candidato ao CREA-RJ, compartilhou reflexões importantes sobre modernização institucional, inteligência artificial, formação de profissionais e o papel do conselho na valorização da categoria.
Ao longo da entrevista, um tema se destacou com força: a necessidade de transformar o CREA-RJ em uma plataforma mais moderna, útil e conectada à realidade dos engenheiros. Mais do que fiscalizar, a proposta apresentada por Ferranjo é fazer com que o conselho atue como um verdadeiro ecossistema de apoio, inovação e inteligência para profissionais, empresas e sociedade.
Um dos pontos centrais da entrevista foi a avaliação do próprio CREA-RJ como instituição. Segundo Ferranjo, o conselho passou por um processo de modernização tecnológica importante, mas ainda em construção. Ele explicou que, ao assumir a gestão, encontrou sistemas obsoletos, defasados e pouco integrados com as necessidades atuais da engenharia.
Esse cenário, segundo ele, exigiu uma mudança profunda na cultura administrativa. A gestão precisou iniciar uma verdadeira disrupção tecnológica, substituindo ferramentas antigas por soluções mais modernas, capazes de melhorar a fiscalização, a análise de projetos e a relação com os profissionais registrados.
O entrevistado ressaltou que a transformação não se limita à digitalização de processos. Para ele, modernizar o CREA-RJ significa criar um ambiente em que o engenheiro encontre suporte real para trabalhar melhor, aprender mais e exercer sua profissão com maior eficiência.
Na visão apresentada, o conselho deve deixar de ser percebido apenas como uma estrutura burocrática e passar a entregar valor concreto aos profissionais. Isso inclui inspetorias mais funcionais, espaços de coworking, treinamentos e acesso a ferramentas que ajudem no dia a dia da engenharia.
Essa mudança de postura é estratégica. Em um setor que depende cada vez mais de tecnologia, dados e atualização constante, o CREA-RJ pode se tornar um agente de fortalecimento profissional, e não apenas um órgão regulador.
Outro destaque importante foi a adoção de tecnologias como georreferenciamento e BIM. Ferranjo afirmou que essas ferramentas representam um avanço significativo na capacidade de fiscalização, organização e análise de informações técnicas.
O BIM, por exemplo, tem potencial para revolucionar a forma como projetos são concebidos, acompanhados e executados. Já o georreferenciamento amplia a precisão dos dados e permite um controle mais inteligente sobre obras e serviços registrados no sistema.
Para o candidato, o CREA-RJ precisa acompanhar esse movimento. Mais do que isso, deve liderá-lo. A ideia é que o conselho não fique preso a modelos ultrapassados, mas seja capaz de incorporar inovação em sua estrutura, oferecendo aos profissionais acesso a soluções tecnológicas que antes estavam distantes da realidade da maioria.
Durante a conversa, também foi discutida a importância de ampliar o acesso dos profissionais a softwares e licenças, especialmente para recém-formados e autônomos. Esse ponto é crucial porque muitos engenheiros têm conhecimento técnico, mas não dispõem de ferramentas adequadas para competir em igualdade no mercado.
Segundo Ferranjo, o CREA-RJ pode cumprir um papel valioso nesse sentido, facilitando trilhas de conhecimento, parcerias e até o acesso gratuito ou subsidiado a determinadas tecnologias. A proposta é simples, mas poderosa: reduzir barreiras e acelerar a capacitação dos profissionais.
Esse tipo de iniciativa é ainda mais relevante em um contexto em que o domínio de ferramentas digitais passou a ser um diferencial competitivo. Quem não acompanha a evolução tecnológica corre o risco de ficar para trás, e o conselho pode ajudar a evitar isso.
Outro tema importante abordado foi o programa CREA Jovem, voltado para recém-formados e jovens profissionais. Ferranjo destacou que muitos engenheiros saem da faculdade com boa base teórica, mas ainda precisam de orientação prática para entrar com segurança no mercado.
Essa transição entre academia e mundo profissional nem sempre é simples. Falta experiência, faltam conexões e, muitas vezes, faltam referências sobre como precificar, atuar e se posicionar. É nesse momento que o CREA-RJ pode atuar de forma mais estratégica.
O programa CREA Jovem foi citado como uma iniciativa relevante para apoiar esse início de carreira. A lógica é oferecer orientação técnica, desenvolvimento profissional e incentivo à valorização da mão de obra. Para Ferranjo, o jovem engenheiro precisa entender que seu conhecimento tem valor e que sua atuação deve ser reconhecida com qualidade e remuneração justa.
Esse cuidado com as novas gerações é essencial para o futuro da profissão. Sem renovação, sem capacitação e sem perspectiva de crescimento, a engenharia perde força. Por isso, o CREA-RJ deve ser também uma plataforma de formação continuada.
Um dos trechos mais relevantes da entrevista tratou do impacto da inteligência artificial na engenharia. Ferranjo classificou a IA como uma das maiores revoluções do nosso tempo, com potencial para mudar profundamente a forma como aprendemos, perguntamos, criamos e executamos tarefas.
Para ele, o avanço da inteligência artificial não deve ser visto apenas como ameaça, mas como uma oportunidade para repensar processos e elevar a qualidade do trabalho técnico. No entanto, esse uso precisa ser responsável, especialmente em áreas onde existem riscos reais para pessoas, estruturas e investimentos.
O entrevistado ressaltou que a inteligência artificial só gera bons resultados quando trabalha com dados bem estruturados e sob supervisão humana qualificada. Na engenharia, isso é ainda mais importante porque decisões equivocadas podem comprometer obras, serviços e segurança.
Assim, o papel do profissional não desaparece. Pelo contrário: ele se torna ainda mais estratégico. A IA pode acelerar análises e organizar informações, mas a interpretação, o julgamento técnico e a responsabilidade continuam sendo humanos. O CREA-RJ, nesse cenário, pode ajudar a preparar os profissionais para essa nova realidade.
Além disso, Ferranjo observou que a própria forma de pensar está mudando. Saber fazer boas perguntas, interpretar respostas e conectar conhecimentos passou a ser tão importante quanto decorar conteúdos. Em outras palavras, criatividade e capacidade analítica ganharam um peso enorme na nova engenharia.
Entre as propostas mais inovadoras apresentadas por Ferranjo, está a ideia de transformar o banco de dados das ARTs em inteligência de mercado. A proposta é aproveitar a enorme quantidade de informações já disponíveis para gerar indicadores sobre obras, serviços, preços, demandas regionais e oportunidades para profissionais e empresas.
Essa visão pode mudar completamente a forma como o CREA-RJ atua. Em vez de ser apenas um repositório de registros, o conselho passaria a funcionar como uma plataforma inteligente de suporte ao setor, oferecendo dados estratégicos para decisões mais embasadas.
Ferranjo também apontou que essa base de dados pode ser útil não apenas para engenheiros, mas também para contratantes e órgãos públicos. Em processos de contratação, por exemplo, uma plataforma organizada poderia ajudar na qualificação técnica antes mesmo da definição do preço.
Isso está alinhado com princípios da legislação atual, incluindo a lógica de buscar qualidade, eficiência e melhor relação entre custo e resultado. Na visão dele, uma ferramenta bem estruturada permitiria uma análise mais justa e menos baseada apenas no menor valor.
O entrevistado foi enfático ao dizer que “melhor preço” não significa necessariamente “menor preço”. É preciso considerar custos de ciclo de vida, operação, manutenção e sustentabilidade das soluções. Caso contrário, o mercado pode ser pressionado por práticas de dumping, prejudicando empresas sérias e a qualidade dos serviços prestados.
Ao longo da entrevista, ficou claro que a visão apresentada por Miguel Fernández vai além da gestão tradicional. Sua proposta é posicionar o CREA-RJ como uma plataforma de futuro, capaz de unir tecnologia, formação, representatividade e inteligência de dados em benefício de toda a engenharia.
Essa visão dialoga com um cenário em que as profissões técnicas precisam se reinventar constantemente. A engenharia do futuro será cada vez mais digital, integrada e orientada por dados. Portanto, instituições que acompanham esse movimento tendem a ganhar relevância; as que resistem, perdem espaço.
Entre os objetivos citados, está também a ideia de aproximar o conselho dos profissionais no dia a dia. Isso significa criar espaços mais úteis, escutar melhor as demandas regionais e oferecer serviços que realmente façam diferença na rotina dos engenheiros.
A proposta não é apenas administrativa. Ela tem um forte componente de transformação cultural. O CREA-RJ deve ser visto como parceiro do profissional, e não como um obstáculo. Esse reposicionamento pode ampliar a confiança da categoria e estimular maior participação.
A entrevista com Miguel Fernández deixa uma mensagem clara: o futuro da engenharia depende de instituições mais modernas, participativas e inteligentes. O CREA-RJ, nesse contexto, tem a chance de deixar de ser apenas um órgão fiscalizador e se tornar uma referência em inovação, capacitação e inteligência de mercado.
Com iniciativas voltadas à tecnologia, ao apoio aos jovens profissionais, ao uso estratégico da inteligência artificial e à valorização da representatividade, o conselho pode assumir um papel muito mais relevante no desenvolvimento do setor.
Mais do que administrar processos, a nova visão para o CREA-RJ busca criar pontes entre profissional, mercado, conhecimento e futuro. E essa talvez seja a grande lição da conversa: a engenharia brasileira não precisa apenas acompanhar as mudanças. Ela pode liderá-las.
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